Quebrando o tabu: filme defende a revisão dos conceitos que definem as políticas públicas sobre drogas
Há 40 anos os EUA, a ONU e grande parte dos países ocidentais combatem o consumo de drogas com uma verdadeira guerra e sob o princípio da repressão incansável. Há 40 anos o consumo, o tráfico e os tipos de drogas ilícitas disponíveis aumenta vertiginosamente. Um raciocínio rápido conclui que a política pública que busca combater as drogas por meio da repressão é um fracasso. Não é isso o que pensa o governo dos EUA, a ONU e a maior parte das nações influentes. Por trás da negativa em reconhecer a derrocada da ‘guerra’, está um princípio moral. O consumo de drogas ilícitas é visto como elemento central de degradação social, afetando relações familiares, de trabalho, reduzindo a produtividade da economia, comprometendo recursos públicos em sistemas de saúde e de segurança para lidar com a questão. Apesar da justificativa racional-legal, a motivação moral, por vezes religiosa, não é dita, mas está subjacente ao processo. É essa moralização da política pública que não permite sua revisão e é do agrado de grande parte dos grupos conservadores que compõem os principais países do mundo, com enorme força para fazer e derrubar líderes. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aos 80 anos, assumiu a bem-vinda causa da revisão dos conceitos que norteiam as políticas sobre drogas. É sobre isso que trata o documentário Quebrando o tabu, dirigido por Fernando Grostein Andrade. Muitos quiseram ver no filme a defesa da liberação do consumo de drogas, ou até a incitação a isso. Tais argumentos revelam o tamanho da dificuldade em se discutir o problema com serenidade. É evidente que o consumo crescente e desordenado de drogas preocupa e constitui-se em chaga capaz de prejudicar a solidez das relações sociais. Mas a forma como se lida com ela é um retumbante erro. Alternativas precisam ser pensadas. Experiências já existem pelo mundo, e é necessário estudá-las e aperfeiçoá-las. O problema exige um tratamento que ultrapassa a opinião médica, respeitável mas que é reduzida para entender uma situação que tem dimensões amplas e complexas. O documentário é interessante porque mostra o fracasso da política atual, sonda algumas alternativas e, sobretudo, demonstra como devemos tratar as drogas com racionalidade. Há um pensamento comum que as vê como herança demoníaca ou coisa do tipo. Essa dimensão simbólica impede o debate saudável. Há que se revisar, também, a ideia de que o usuário padrão de drogas é aquele que aparece na imprensa, o que mata e rouba os pais, vende tudo o que tem, corre riscos permanentes, interna-se em clínicas de recuperação seguidamente. Esse perfil é minoritário. A grande maioria consome de maneira silenciosa, com danos pessoais e sociais difíceis de avaliar – e se poderia pensar, aqui, na droga como mecanismo de coesão social, seu uso permitindo a manutenção de determinado status quo, exatamente o contrário do discurso prevalecente! Quebrando o tabu mostra muito bem, por sua vez, a importância de se distinguir os tipos de drogas. Os efeitos e as consequências do consumo de maconha e de crack são gigantescos. E exigem perspectivas diferenciadas de abordagem. Outro fato recorrente nas matérias jornalísticas sobre drogas é a ideia de que maconha é porta de entrada para outros psicotrópicos. Isso é opinião médica, que exige pesquisas profundas envolvendo outras áreas para sua realidade ser dimensionada. As razões para o uso são múltiplas, envolvem questões culturais, sociais e psicológicas – individuais e coletivas. Qualquer generalização pecará. E o fato mais interessante: não há o registro de sociedade humana em que não houvesse o consumo de substâncias que alteram o estado de consciência. Enfim, defender o fim das drogas pode ser uma utopia que contribui para o seu contrário. É preciso, podemos ter certeza, novas formas de lidar com a questão, principalmente por meio de políticas públicas que consigam incorporar a complexidade do problema.
PS.: O poder dos grupos conservadores nos EUA e também em outros países importantes é tão grande que somente no momento em que deixam a Presidência das nações líderes como Bill Clinton, Jimmy Carter, FHC, Ernesto Zedillo passam a defender posições diferenciadas quando o tema é drogas. Imagine o impacto de um candidato defendendo as ideias de FHC em uma campanha eleitoral brasileira. A barreira cultural para a revisão do tema é gigantesca. Maior que um problema efetivo de Estado.

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