segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os donos da liberdade de imprensa

No início de 2006, quando estourou o escândalo do caseiro Francenildo dos Santos, o jornalista Paulo Nogueira era diretor editorial da Editora Globo, responsável, entre outras, pela publicação da revista Época. Em março daquele ano, a revista tornou-se protagonista no episódio ao revelar que constavam na conta bancária de Francenildo depósitos totalizando quase R$ 40 mil. Supostamente seriam valores pagos para produzir as denúncias contra o então poderoso Ministro da Fazenda Antonio Palocci. No mesmo dia da publicação, Francenildo provou a origem do dinheiro e acabou com as suspeitas. Seis anos depois, neste maio de 2011, Paulo Nogueira, já fora da Editora Globo, revela os bastidores da publicação do extrato de Francenildo por Época. É um caso exemplar. A revista recebeu a informação diretamente de Palocci. O ministro repassou os dados a um dos donos da Globo, João Roberto Marinho. Foi ele quem determinou a publicação exclusiva na revista e não nos outros veículos do grupo. Nogueira diz que, em razão da concorrência acirrada e do medo de que outra publicação saísse com as informações, não houve questionamento à publicação. A história revela um crime cometido por Antonio Palocci, desmistifica o jornalismo investigativo e mostra quem é o verdadeiro dono da liberdade de imprensa. Grande parte das denúncias contra políticos não é resultado de investigação, mas sim de disputa sangrenta dos bastidores – ao jornalista basta manter a boa fonte, que na hora certa abrirá o baú das maldades. O conceito de liberdade que os donos da imprensa brasileira tentam difundir é o conceito da liberdade de negócio. Ou seja, privatiza-se a liberdade. Época publicou os extratos do caseiro Francenildo porque esse era um fato jornalístico bombástico, mas, sobretudo, porque o dono assim ordenou. Se João Roberto Marinho tivesse determinado o arquivamento da informação ou a tivesse dado em preferência a O Globo ou ao Jornal Nacional, mesmo com o extrato em mãos, os jornalistas de Época precisariam silenciar.  Ou o jornalismo é um bem público – e em razão disso defendemos liberdade de imprensa, ou ele é um negócio como qualquer outro – e aí pode ser submetido a regras e controles como é a produção de margarina, por exemplo.

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