Culpa e hedonismo em Oscar Wilde

O romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, é grande ao retratar um mundo no qual o hedonismo se transforma no valor absoluto. Esbarra, no entanto, no imenso sentimento de culpa que permeia cada linha, cada palavra, todas as situações. Wilde não conseguiu desvincular-se desse sentimento que é a tormenta permanente a questionar a ação. Talvez quisesse isso mesmo. Ao retratar a entrega à beleza, à vaidade e à juventude, o escritor irlandês construiu, ainda nos anos 1890, uma obra que ilumina o mundo contemporâneo. Em qual tempo, afinal, a beleza e a juventude foram saudadas com tanta ênfase e exclusividade como no nosso? No mundo de Wilde, porém, o império do hedonismo resulta em um turbilhão destrutivo e amaldiçoado, seguindo as melhores crenças cristãs. O prazer, momentâneo e etéreo, termina no limite da culpa, da podridão, da miséria de espírito que retira a capacidade de permanecer na vida. É ele, o prazer, uma espécie de pai dos males mundanos. Por ele, qualquer transgressão é justificada. E sucessivamente, cada vez mais, de maneira a derrotar o ser entregue a seus pendores. Há algo mais cristão? Pois bem, os cinemas apresentam agora a versão 2011 de O Retrato de Dorian Gray, filme de Oliver Parker fiel ao espírito de Wilde, mesmo que possa ser contestado em alguns pontos. A sensualidade transparente na obra literária é substituída pela orgia, a insinuação é leve, muitas vezes não convence, mas o essencial está lá: Dorian Gray, belo jovem, em um pacto consigo mesmo, abandona a altivez de espírito para degustar os prazeres da carne, do presente, da beleza e da devassidão. Representando uma consciência moral, que é social também, todas as misérias concentram-se no quadro que retrata sua imagem sedutora e jovial. A culpa, aqui, aparece de forma intensa e poderosa. E ela estará sempre presente. Em cada ação, Dorian esfola-se no lamaçal dos valores perdidos. Nunca desiste de seu pendor presenteísta. Suplanta convenções sociais, transgride o padrão sexual aceito, ultrapassa uma ordem comunitária – torna-se o ser que existe para satisfazer a si mesmo. Perde-se na própria imagem - reflexo de um instante cristalizado. E caminha para a tragédia. Goste-se ou não, nosso tempo registrou a vitória da estética e do hedonismo, a suplantação da forma em relação ao conteúdo. E assim é, por mais que muitos esperneiem. Oscar Wilde foi primoroso ao antecipar esse mundo. E falhou na tentativa de compreender as suas consequências.

1 Comments:
Sem dúvida é um dos melhores livros q já li, estou me devendo assistir o filme.
Sou amante de Oscar Wilde.
Ótima matéria, parabéns.
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