quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Relações ordinárias e sentimentos pulsantes

matei

Há filmes que se deve ver simplesmente para incendiar a reflexão interior. Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan, é um deles. Apesar de permitir uma extensa análise psicanalítica, os depoimentos de Hubert, um adolescente homossexual de 16 anos, e seus conflitos com a mãe, afloram a brutalidade que envolve as relações afetivas com aquelas pessoas que adornam nosso cotidiano ou estão em nossas vidas pela decisão suprema do destino. Esses encontros estão dilacerados pelos limites entre amor e ódio, pela ligação visceral e pela necessidade de afastamento, pelo apego e pelo desapego. O filme mostra com maestria como relações assim, ordinárias, despertam um vulcão de sensações diante de detalhes compartilhados em um singelo café da manhã – uma manteiga no canto da boca, por exemplo. Eu Matei..., por isso, transcende todas as possibilidades de se pensar sobre ele, e nos leva a um mergulho pessoal. Mesmo que a realidade nossa seja diferente da dos personagens, é impossível não embrenhar-se no mundo dos sentimentos e das sensações provocados por todas aquelas pessoas que constituem nossos cotidianos e pensar em como ultrapassamos limites sem ter razões refletidas para isso. A relação de Hubert com a mãe transita no limite do amor e do ódio, da paixão e da raiva, e para esse conflito existiriam inúmeras explicações. Mas o filme tem o grande mérito de despertar os sentimentos de quem o vê. Para quem, evidentemente, se dispor a isso, sem fugir por atalhos que impedem o sempre lúcido olhar interior.

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