A ditadura do grupo
Concorrente ao Oscar de Melhor Filme neste 2011, Inverno da Alma, dirigido por Debra Granik, é anunciado como um retrato do interior profundo dos EUA, lugares nos quais o império dos direitos individuais e das liberdades não chegou e em que as regras são ditadas pelos códigos do grupo. Cumpre parcialmente a promessa. Mas permite que se conheça o funcionamento de um grupo social tradicional mesmo em uma sociedade que transita entre a liberalidade e o conservadorismo. No Brasil, conhecemos muito bem essa característica, e por isso o impacto do filme não é contundente. As favelas nacionais, bem como as localidades interioranas, são, sobretudo, sociedades orgânicas, no sentido definido por Durkheim – tradicionais, portanto. É fundamental registrar que uma sociedade tradicional difere de uma sociedade conservadora em sutis pontos. O principal deles é que o conservadorismo admite e convive com a transgressão. Já o ‘tradicionalismo’ lida com dureza em relação aos indivíduos que a ele afrontam. Ree Dolly, 17 anos, precisa encontrar o pai para não perder a casa em que vive com a mãe doente mental e os dois irmãos menores. Na empreitada, expõe a vida dura, pobre e movida com o consumo e a produção de drogas desse interior norte-americano. Seu maior obstáculo, no entanto, é o fato de que o caminho em busca do pai significa, para o grupo, o rompimento com as regras tácitas de seu funcionamento. Naquela sociedade, Dolly enfrenta o grupo e vislumbra o perigo e a punição. Consegue fazer com que as peças se movam, porém, a partir da insistência e de apoios esporádicos. Ela tem diante de si o dilema que contrapõe a necessidade de sobrevivência e o enfrentamento dos códigos e valores do grupo. Há um certo consenso sociológico de que a força do grupo é sempre draconiana sobre os indivíduos. As mudanças, porém, só ocorrem quando indivíduos se dispõem, a partir de condições sociais dadas (para Durkheim, a divisão social do trabalho), a transformar as realidades, seja por ideologia, necessidade, paixão, ou outro combustível do tipo. Inverno da Alma é um bom mosaico de como os grupos tradicionais permanecem mesmo em sociedades que avançaram e constituiram-se pelo respeito às liberdades e à autonomia do indivíduo. A pobreza quase sempre vem acompanhada pela ditadura dos grupos, que cerceiam os caminhos dos indivíduos. Além disso, Inverno é dilacerante ao confrontar-nos com as exigências emocionais que se impõem a Dolly. São experiências que poderiam endurecer eternamente qualquer um, mas a menina sai delas com serenidade comovente. Com uma pulsão de vida que compensa toda a dor.
Marcadores: cinema

1 Comments:
Acabei de assistir. Achei excelente.
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