terça-feira, 4 de setembro de 2007

Para que serve a arte?

A questão sobre a utilidade e a função da arte no mundo é recorrente e já ocupou milhares de páginas, mas continua instigante. Várias vertentes buscam explicações. Há a psicológica, que desvenda o quanto a expressão artística pode expressar da alma do homem, com suas neuroses, instintos e exaltações. A arte pode ser vista como terapia ou desembocadura de dores que afligem e angustiam os artistas. Há a sociológica, que busca entender como a arte representa grupos sociais e de que maneira é ela própria um mecanismo de distinção na vida em sociedade. As duas, muitas vezes, produzem confronto. Talvez esteja na complementariedade uma explicação mais profunda e complexa. Durante o século 20, floresceu uma crítica marxista que tenta dar à arte um papel na construção de consciências e, por seguinte, no funcionamento da estrutura mais ampla das sociedades. As teorias marxistas procuram valorizar a arte engajada, com objetivo, causa e ação. O fazer despretensioso não tem lugar. Por sua vez, Pierre Bourdieu mostra como a produção artística segue indicadores socialmente colocados, reproduzindo incorporações de grupos ao longo do tempo e também como mecanismo de distinção, o que leva ao reconhecimento de alguns artistas e não de outros. Na análise psicológica, é interessante notar o papel dado por Lacan. Para o psicanalista francês, a arte liberta da alma humana tudo aquilo que a atordoa. "O que está dentro de nós, nos domina. O que está fora, é dominado pela nossa mente", ensinava Lacan. De maneira geral, a teoria marxista influenciou sobremaneira a forma como se enxerga a arte, por isso a quantidade de movimentos e atuações que buscam a inserção em grupos sociais excluídos e que produzem para criticar a ordem política, econômica ou social. Fazer (ou apreciar) arte é também uma maneira de ocupar um espaço no mundo social, dizia Bourdieu e, em razão disso, nem todos são artistas e nem toda produção possui reconhecimento. O bom e o ruim possuem determinação não só pelo bom gosto, mas sobretudo pela inserção e trajetórias de quem produz e de quem aprecia. A vida em sociedade é sempre o resultado da ação de aliados em relação a possíveis inimigos, num resumo grotesco. E para Lacan, fazer arte é libertação. Enfim, são essas três de tantas vertentes que procuram dar um sentido a toda a produção que assistimos e consumimos. Deixando imaginariamente de lado as questões de mercado e unindo Lacan e Marx, a arte deveria ser o espaço para criticar – pôr em crise – e para libertar. Nem sempre é assim. Ela não tem o poder de mudar o mundo, mas pode iniciar um processo de conscientização do homem em relação ao mundo em que vive, ao permitir o distanciamento e a reflexão. São esses os dois elementos necessários para que as consciências adquiram autonomia. Ou a arte é apenas um capital utilizado como instrumento de distinção social para uns e a atividade da vida para outros – tendo sentido apenas para quem a faz e se transformando em engodo para os espectadores?

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2 Comments:

Blogger Liquificadorizando said...

"A Arte é a nossa maneira de afirmamos nossa identidade e sair do papel de pequenos que a natureza nos atribui"

Parabéns pelo texto!

04/10/09 11:51  
Blogger Sergio Quintian said...

Sempre me instiga a pensar tudo o q se refere à arte.Vejo a arte como a porta do paraíso. A arte visa o deslumbramento! Maravilhar com a criação. Provocar a contemplação.Incitar as emoções legitimas. A arte deveria ser a manifestação do que se tem de melhor.É a materialização do sublime. A arte serve para que os indivíduos se identifiquem,se reconheçam humanos, atraves dos sentimentos, experiencias, sentidos.A arte é a marca da criação nos seres viventes, algo que nos aproxima dos deuses.
Sergio Quintian/ Casa do Poeta Rio Grande/PENCA/RS/Brasil

16/05/10 13:46  

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