quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A caixa de Pandora no mundo da Deusa dos Olhos Vendados

Num dos bons momentos desse 2011 que vai pela porta de saída, a corregedora da Justiça brasileira Eliana Calmon afirmou para todos os que quisessem ouvir: “Há bandidos de toga”. A declaração retumbante não é surpresa para os céticos – todos aqueles que não acreditam nos mundos mágicos. Eliana passou a ser perseguida e atacada – prova cabal de que expusera uma verdade incômoda. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) leu nota de repúdio e teve início campanha pela retirada de poderes da Corregedoria. Agora, o Brasil descobre que dois ministros do STF, um deles seu Presidente, receberam atrasados salariais de quando eram juízes do Tribunal de Justiça de São Paulo, prática que estaria sob investigação da Corregedoria. O outro beneficiado, Ricardo Lewandowski, concedeu liminar interrompendo a investigação. Tudo mera coincidência. Antes disso, o ministro Marco Aurélio retirou os poderes de investigação da Corregedoria. Como manda o figurino, ao apagar das luzes do ano. Novas decisões somente depois do Carnaval. Não bastasse o absurdo, as associações de juízes solicitam a investigação da corregedora, por uma suposta quebra de sigilo fiscal dos magistrados. Em outra oportunidade, Eliana denunciou os eventos realizadas por essas associações e que são patrocinados por empresas que possuem ações milionárias tramitando nos tribunais. As ações dos ministros podem ser juridicamente perfeitas. Mas são imorais. Como imoral foi decisão do TJ gaúcho que declarou inconstitucional lei apresentada pelo Governo do Estado que elevou a alíquota previdenciária dos servidores estaduais. Ora, a consequência da decisão dos senhores magistradores é que a alíquota, que variava conforme os rendimentos – aumentando conforme maior fosse o salário, será estendida a todos de forma uniforme, em um patamar menor. Ou seja, os senhores desembargadores pagarão menos, e o resto da escumalha terá seu desconto elevado. Não é bonito? No mais alto grau da imoralidade, apesar de legal, estão desembargadores e juízes que percebem o teto da remuneração do serviço público e após a aposentadoria advogam junto aos tribunais nos quais prestaram serviços, diante de juízes e desembargadores amigos e que, não raras vezes, lhes devem favores (isso tudo no país da cordialidade, em que valores subjetivos suplantam qualquer tentativa de impor a objetividade). O sensato é que abdiquem da aposentadoria, optanto em definitivo pela advocacia. Quantos fazem essa escolha moral? O passe desses profissionais, por coincidência, vale ouro. No Brasil que se entope de denúncias, das mais relevantes às mais absurdas, sobre o Executivo e o Legislativo, quando é que se terá coragem de abrir a caixa preta de aço do Judiciário?

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sábado, 10 de dezembro de 2011

A defesa da liberdade de informação que interessa apenas aos donos da imprensa

Os donos das empresas de comunicação brasileiras têm tentado, deliberadamente, confundir a sociedade tratando liberdade de expressão/de informação/de imprensa, preceitos constitucionais e pilares de uma democracia, como  sinônimo de liberdade de EMPRESA. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, alerte-se. A tentativa de misturar alhos e bugalhos, joio e trigo, busca apenas a garantia de que seus negócios sejam mantidos imunes a qualquer fiscalização, controle ou transparência. A ameaça que ronda os empresários são propostas de criação de conselhos de comunicação. Entre os idealizadores dessas entidades, evidente, há espíritos totalitários. A concepção, entretanto, não é absurda se surgir para fiscalizar e garantir transparência: 1 – às concessões de canais de rádio e TV; 2 – aos gastos públicitários de governos e empresas públicas; 3 – à existência de monopólios, cartéis e oligopólios entre as empresas de comunicação; 4 – às relações entre essas empresas e seus anunciantes; 5 – às práticas empresariais em relação aos jornalistas e; 6 – ao controle acionário das empresas. Registre-se: os conselhos não existiriam para punir, determinar ordens, interferir nas ações. Mas, apenas, para fiscalizar a legislação existente e garantir transparência. Se a liberdade de imprensa é plena e cláusula pétrea constitucional, ou seja, um bem da sociedade,  por que razão as empresas que a exercem, como negócio, estão imunes de qualquer fiscalização ou mecanismo de transparência?

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domingo, 12 de junho de 2011

O grito agudo e infinito que atravessa a natureza

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“ Como se sabe, O Grito nasceu de uma experiência pessoal de intensidade mística que Munch registrou em seu diário em 1892 e que, conforme contou a amigos, estava determinado a pintar. Ele estava caminhando por uma ponte com dois amigos quando o céu pareceu se tornar “vermelho-sangue” graças ao sol poente. Exaurido, ele se recostou na balaustrada. “Meus amigos seguiram caminhando”, escreveu. “Fiquei ali, tremendo de medo. E senti um grito agudo e infinito que atravessava a natureza.”

O Grito poderia representar dois aspectos da mente. Por um lado, o homem transmite uma infinidade de terror. Mas não longe dele estão aqueles que observam a mesma cena com tranquilidade. Talvez isso seja parte do que torna a imagem tão assustadora. A calma dos outros na ponte indica que o homem não está realmente gritando. Ele exprime o grito com a boca aberta e os olhos saltados, e cobre os ouvidos como que para abafar o som do seu próprio grito. Mas não se ouve o grito. Este não se expressa através da forma quase sobrenatural do homem  no primeiro plano da pintura, mas flui através dele e se projeta na própria natureza. Dessa forma, O Grito poderia servir como uma representação não apenas do pânico, mas do conceito freudiano de deslocamento. A agonia que o homem sente, na falta de uma expressão, se alarga e se projeta no mundo em torno dele.”

Allen Shawn, em Bem que eu queria ir

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sábado, 11 de junho de 2011

Quebrando o tabu: filme defende a revisão dos conceitos que definem as políticas públicas sobre drogas

tabu


Há 40 anos os EUA, a ONU e grande parte dos países ocidentais combatem o consumo de drogas com uma verdadeira guerra e sob o princípio da repressão incansável. Há 40 anos o consumo, o tráfico e os tipos de drogas ilícitas disponíveis aumenta vertiginosamente. Um raciocínio rápido conclui que a política pública que busca combater as drogas por meio da repressão é um fracasso. Não é isso o que pensa o governo dos EUA, a ONU e a maior parte das nações influentes. Por trás da negativa em reconhecer a derrocada da ‘guerra’, está um princípio moral. O consumo de drogas ilícitas é visto como elemento central de degradação social, afetando relações familiares, de trabalho, reduzindo a produtividade da economia, comprometendo recursos públicos em sistemas de saúde e de segurança para lidar com a questão. Apesar da justificativa racional-legal, a motivação moral, por vezes religiosa, não é dita, mas está subjacente ao processo. É essa moralização da política pública que não permite sua revisão e é do agrado de grande parte dos grupos conservadores que compõem os principais países do mundo, com enorme força para fazer e derrubar líderes. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aos 80 anos, assumiu a bem-vinda causa da revisão dos conceitos que norteiam as políticas sobre drogas. É sobre isso que trata o documentário Quebrando o tabu, dirigido por Fernando Grostein Andrade. Muitos quiseram ver no filme a defesa da liberação do consumo de drogas, ou até a incitação a isso. Tais argumentos revelam o tamanho da dificuldade em se discutir o problema com serenidade. É evidente que o consumo crescente e desordenado de drogas preocupa e constitui-se em chaga capaz de prejudicar a solidez das relações sociais. Mas a forma como se lida com ela é um retumbante erro. Alternativas precisam ser pensadas. Experiências já existem pelo mundo, e é necessário estudá-las e aperfeiçoá-las. O problema exige um tratamento que ultrapassa a opinião médica, respeitável mas que é reduzida para entender uma situação que tem dimensões amplas e complexas. O documentário é interessante porque mostra o fracasso da política atual, sonda algumas alternativas e, sobretudo, demonstra como devemos tratar as drogas com racionalidade. Há um pensamento comum que as vê como herança demoníaca ou coisa do tipo. Essa dimensão simbólica impede o debate saudável. Há que se revisar, também, a ideia de que o usuário padrão de drogas é aquele que aparece na imprensa, o que mata e rouba os pais, vende tudo o que tem, corre riscos permanentes, interna-se em clínicas de recuperação seguidamente. Esse perfil é minoritário. A grande maioria consome de maneira silenciosa, com danos pessoais e sociais difíceis de avaliar – e se poderia pensar, aqui, na droga como mecanismo de coesão social, seu uso permitindo a manutenção de determinado status quo, exatamente o contrário do discurso prevalecente! Quebrando o tabu mostra muito bem, por sua vez, a importância de se distinguir os tipos de drogas. Os efeitos e as consequências do consumo de maconha e de crack são gigantescos. E exigem perspectivas diferenciadas de abordagem. Outro fato recorrente nas matérias jornalísticas sobre drogas é a ideia de que maconha é porta de entrada para outros psicotrópicos. Isso é opinião médica, que exige pesquisas profundas envolvendo outras áreas para sua realidade ser dimensionada. As razões para o uso são múltiplas, envolvem questões culturais, sociais e psicológicas – individuais e coletivas. Qualquer generalização pecará. E o fato mais interessante: não há o registro de sociedade humana em que não houvesse o consumo de substâncias que alteram o estado de consciência. Enfim, defender o fim das drogas pode ser uma utopia que contribui para o seu contrário. É preciso, podemos ter certeza, novas formas de lidar com a questão, principalmente por meio de políticas públicas que consigam incorporar a complexidade do problema.


PS.: O poder dos grupos conservadores nos EUA e também em outros países importantes é tão grande que somente no momento em que deixam a Presidência das nações líderes como Bill Clinton, Jimmy Carter, FHC, Ernesto Zedillo passam a defender posições diferenciadas quando o tema é drogas. Imagine o impacto de um candidato defendendo as ideias de FHC em uma campanha eleitoral brasileira. A barreira cultural para a revisão do tema é gigantesca. Maior que um problema efetivo de Estado.

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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os donos da liberdade de imprensa

No início de 2006, quando estourou o escândalo do caseiro Francenildo dos Santos, o jornalista Paulo Nogueira era diretor editorial da Editora Globo, responsável, entre outras, pela publicação da revista Época. Em março daquele ano, a revista tornou-se protagonista no episódio ao revelar que constavam na conta bancária de Francenildo depósitos totalizando quase R$ 40 mil. Supostamente seriam valores pagos para produzir as denúncias contra o então poderoso Ministro da Fazenda Antonio Palocci. No mesmo dia da publicação, Francenildo provou a origem do dinheiro e acabou com as suspeitas. Seis anos depois, neste maio de 2011, Paulo Nogueira, já fora da Editora Globo, revela os bastidores da publicação do extrato de Francenildo por Época. É um caso exemplar. A revista recebeu a informação diretamente de Palocci. O ministro repassou os dados a um dos donos da Globo, João Roberto Marinho. Foi ele quem determinou a publicação exclusiva na revista e não nos outros veículos do grupo. Nogueira diz que, em razão da concorrência acirrada e do medo de que outra publicação saísse com as informações, não houve questionamento à publicação. A história revela um crime cometido por Antonio Palocci, desmistifica o jornalismo investigativo e mostra quem é o verdadeiro dono da liberdade de imprensa. Grande parte das denúncias contra políticos não é resultado de investigação, mas sim de disputa sangrenta dos bastidores – ao jornalista basta manter a boa fonte, que na hora certa abrirá o baú das maldades. O conceito de liberdade que os donos da imprensa brasileira tentam difundir é o conceito da liberdade de negócio. Ou seja, privatiza-se a liberdade. Época publicou os extratos do caseiro Francenildo porque esse era um fato jornalístico bombástico, mas, sobretudo, porque o dono assim ordenou. Se João Roberto Marinho tivesse determinado o arquivamento da informação ou a tivesse dado em preferência a O Globo ou ao Jornal Nacional, mesmo com o extrato em mãos, os jornalistas de Época precisariam silenciar.  Ou o jornalismo é um bem público – e em razão disso defendemos liberdade de imprensa, ou ele é um negócio como qualquer outro – e aí pode ser submetido a regras e controles como é a produção de margarina, por exemplo.

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domingo, 29 de maio de 2011

O medo

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Uma incursão sedutora e atormentante por uma mente dominada pelo medo. Resumidamente, assim podemos descrever Bem que eu queria ir – notas de uma vida fóbica, do americano Allen Shawn. Desde criança, Shawn, reconhecido professor e compositor, sente as inglórias tormentas do medo. De todo o tipo. De altura, de lugar aberto, de avião, de elevador, da rua, enfim, um emaranhado imobilizante. O livro é um relato da história pessoal do autor, suas relações familiares, suas experiências decisivas, e uma devassa nas teorias mais próperas sobre a mente humana, com especial destaque para as descobertas da neurociência e da genética e uma dedicação apurada a Darwin e Freud, os mestres que mergulharam nesse oceano até hoje enigmático. O relato de Shawn é suave e perturbador, denso e agradável. Em muitos momentos, é possível se identificar, encontrar similaridades, divagar na tentativa de compreender nosso eu, nossos sentimentos, as emoções que vivenciamos e não compreendemos. O principal objetivo do autor não é dar respostas definitivas, mas apresentar um parorama das investigações científicas que tentam mapear a mente, sua história e seus mecanismos de funcionamento. E faz isso com linguagem límpida, texto que flui, informações relevantes e intrigantes. O mundo dos sentimentos é complexo. O medo, por exemplo, remonta a nossas reações mais antigas enquanto espécie. E permance nas recantos mais profundos do cérebro, passando de geração a geração. É um instrumento poderoso de defesa, um impulsionador de ações e o paralisante mais eficaz. Da natureza, o sentimento ganhará robustez ao passar de um indivíduo a outro por meio das transmissões genéticas. Essa transmissão diz, sobretudo, respeito à suscetibilidade (maior ou menor) a eventos psicológicos e sociais. Nesse momento, entra em curso a experiência de cada um. Da união intrigante de fatores, surge a forma como o sentimento é vivido. No percurso longínguo há mais dúvidas que certezas e intrigantes movimentos. Um detalhe pode modificar tudo. Apesar do universalismo de grande parte do entendimento, cada indivíduo constrói uma história própria, parte compreensível, parte indevassável. Os interessantes mecamismos de funcionamento da mente constituem uma fascinante viagem. Com portos seguros e outros misteriosos. Viver, ainda, é a única saída. De certa forma, essa é a conclusão de Shawn. Como é misterioso compreender o que faz as coisas acontecerem e os porquês, é intrigante – e consolador – constatar que atitudes singelas, como um grupo de apoio – no qual cada um conta sua história – ou a visita a um avião parado – o contato inofensivo com o objeto de terror – podem ter efeitos analgésicos  e reconfortantes diante dos fantasmas que impedem o seguir adiante.  Bem que eu queria ir é um livraço porque reúne um texto fluido, um tema cativante e universal e não apresenta verdades – realiza um caminhar por uma floresta desconhecida, atraente e temida.

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

A maneira como falamos revela um lugar social que ocupamos

A polêmica em torno dos livros da Coleção Viver, Aprender, adquiridos pelo Ministério da Educação (MEC),  que apresentam um capítulo no qual se discute as diferenças entre a língua escrita e a falada e, no entender dos críticos, referenda supostos erros, é marcada pela insensatez. A leitura do texto do livro didático é cabal para mostrar-nos que a autora foi infeliz. Tentou simplificar uma discussão que é complexa e valeu-se de conceitos sociológicos como o de classe de maneira equivocada. Por isso, suas conclusões, que baseiam-se em ideias e estudos consagrados pela Linguistica , permitiram saraivadas de ataques e um debate no qual o essencial foi esquecido. Pois é, a Linguistica diz coisas evidentes e, como grande parte das evidências, encobertas por construções que garantem a predominância de determinadas verdades. Primeiro fato, a língua possui a função de comunicar, essa é sua essência. Segundo, comunicar é fundamental elemento de poder, seja ele na relação entre duas pessoas ou de um líder com uma multidão, para utilizar os extremos. Esse capital que é transferido à língua a torna muito mais que um instrumento de comunicação. Dessa forma, por exemplo, quando alguém fala, quase que automaticamente o ouvinte infere elementos psicológicos, sociais e culturais a respeito do interlocutor ou do grupo no qual se insere. Esse exercício podemos realizar diariamente, para verificar como o uso da língua é um mecamismo de reconhecimento, de identificação, de marcação do outro. Tudo o que diz respeito à língua como capital simbólico, instrumento de poder, etc., é exterior à sua essência, ao mecanismo de comunicação em si, à produção de uma mensagem. Terceiro, com essas premissas a Linguistica afirma que existe uma dimensão social da língua. E os exemplos são cristalinos. Evidente que há uma norma culta, utilizada especialmente na escrita, e as escolas devem ensiná-la, principalmente cultivando o hábito da leitura, instrumento poderoso para se conhecer e aprender as maravilhas de um idioma. O que os sociolinguistas dizem, e o livro tentou traduzir para o cotidiano de estudantes do EJA (portanto, adultos que experimentam o viver socialmente com o custo da ausência de diplomas e de conhecimentos formais), é que a maneira que falamos expressa um lugar social que ocupamos. Para além de noções de certo e errado. Então, uma série de ‘erros’, sob o ponto de vista da norma culta, são mais ou menos aceitos dependendo dos grupos sociais que costumam utilizá-los na linguagem coloquial – ou ao que esse ‘erro’ representa. A questão é que um erro de um jovem pobre, sem escolaridade, da periferia, tende a ser encarado como resultado da ignorância, enquanto o erro de um jovem de classe média, escolarizado, é visto como coloquialidade ou irreverência. Dois exemplos: falar ‘finde’ no lugar de final de semana é tão errado, na norma culta, quanto dizer ‘os livro’. As duas formas comunicam para a maioria das pessoas e a contrariedade provém de elementos sociais.  A primeira expressão é aceita com normalidade, já que compartilhada por grupos escolarizados. O uso da segunda é condenado bestialmente, já que expressa a ausência de escolaridade. Qualquer estudante de segundo ano primário não a utilizará. Pois bem,  a isso pode-se chamar de preconceito, uma opinião subjetiva, no entanto. E é interessante que essas questões sejam discutidas na escola. A forma apresentada no livro do MEC, no entanto, pode não ser a melhor, pelo seu caráter doutrinário. Deveria abrir espaço para a discussão franca do tema e não fechar a questão. As reações iradas, por sua vez, apenas revelaram a horda incapaz de conviver com o conhecimento amplo. Normalmente são escritores, jornalistas, profissionais que vivem da palavra e  temem que qualquer debate sobre a língua possa igualá-los aos mortais comuns. O uso da língua na norma culta, supostamente mais correto, elegante e eficiente, é o seu grande capital simbólico. Esse é o caso do jornalista David Coimbra ao desferir ataques raivosos contra a professora Ana Maria Stahl Zilles, que apenas proferiu opiniões ponderadas sobre o tema, sem atacar ninguém. Nem sempre a sabedoria está no norma. Muitas vezes é necessário ir em busca do conhecimento escondido nos meandros da vida.

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terça-feira, 24 de maio de 2011

Frederic Jamenson: a política pós-moderna é a união entre disputas territoriais e as multidões instantâneas

O espaço pelo tempo. Para o crítico norte-americano Frederic Jamenson a pós-modernidade é o momento no qual a questão espacial superou a temporal. Em palestra na abertura do projeto Fronteiras do Pensamento 2011, segunda, dia 23, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, o professor foi além: a política pós-moderna é marcada pelas disputas territoriais. A ecologia diz respeito a isso, as guerras pelo petróleo, a cizânia árabe-israelense, o Código Florestal no Brasil. Conferencista convicente e erudito, Jamenson circula da crítica da arte à gastronomia, envereda pela política e pela economia, dedicando também espaço para uma discussão sobre a experiência individual. Em cada área, tenta mostrar como as transformações contemporâneas convergem para um centro estrutural: as mudanças do capitalismo. Em resumo, a pós-modernidade seria a versão satélite da globalização, representante cabal da terceira fase do capitalismo, posterior ao nacionalismo e ao imperialismo. O olhar marxista de Jamenson não é original, mas sua capacidade argumentativa é contagiante. Ele faz questão de dizer que é um sujeito pós-moderno e que sua análise é uma apresentação de como as coisas são e não uma tentativa de desconstruir ou denegrir a pós-modernidade ou a globalização. Intitulada A Estética da Singularidade, a conferência de Jamenson apresentou ideias interessantes, como o declínio do tema na arte contemporânea em nome dos eventos e uma massificação que atinge a alteridade, impõe um anonimato dominante (o sujeito declina) e faz com que ‘não tenhamos mais provincianos’. Afinal, todos são consumidores, nos tempos de bonança, ou desempregados, nas crises. Nos recentes protestos árabes assistimos, segundo Jamenson, ao fenômeno das multidões instantâneas, interligadas pela tecnologia, anônimas, aparentemente uniformes e fazendo revolução. Para ele, é a representação mais forte da política pós-moderna, ao lado da disputa territorial. Não há dúvida que Jamenson supera um simplismo marxista por vezes recorrente. Além disso, como disse em entrevista a Zero Hora, por influência de Sartre tem interesse na questão da consciência. Nesse caminho, explica o porquê de a globalização ter se transformado na fase posterior de um capitalismo que já foi nacionalista e imperialista mesmo existindo desde antes de ambos os momentos: hoje a globalização afeta as experiências de vida, as subjetividades, por meio de sua face cultural, a pós-modernidade, e em razão disso vive sua etapa de maior relevância. Uma sacada interessante, reconheçamos.

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Morte de Bin Laden expõe os mistérios da relação EUA-mundo árabe

Os dois maiores inimigos norte-americanos dos últimos 20 anos foram, no passado anterior, aliados indispensáveis dos EUA. Saddam Hussein e Osama bin Laden passaram da amizade ao enfrentamento. Por trás das relações, o negócio do petróleo. Para derrotar Saddam, bilhões de dólares, milhares de vidas, mais de 15 anos. O arquivo vivo acabou enforcado. Um silêncio custoso e precioso. No dia histórico em que se anuncia a morte de Osama bin Laden surgem algumas teorias conspiratórias. As circunstâncias da morte ainda não são de todo conhecidas, o que alimenta o coro dos que não acreditam na história oficial. Na noite de 1º de maio, o presidente Barack Obama pronunciou discurso milimetricamente elaborado para a situação. A primeira consequência do fato é que Obama chegará às eleições de 2012 turbinado. Sua vitória, hoje, é certa. Por trás do suposto fim de Bin Laden, porém, não se pode descartar o momento atual por que passa o mundo árabe. Revoltas populares eclodem em inúmeros países, na maioria dos casos derrotando regimes simpáticos ao Ocidente, mesmo que ditaduras de décadas. Aparentemente motivadas pelo desejo de liberdade, massas juvenis têm saído às ruas para protestar. Desde a revolução que derrubou o ditador egípcio, hipóteses pululam na imprensa dando conta que por trás de todo o processo encontram-se grupos islâmicos radicais. Da mesma forma que as informações sobre as razões dos movimentos populares são desencontradas, a atuação de Bin Laden, por vezes, é reduzida a um simplismo difícil de convencer: um herdeiro milionário que com ações pagas com sua fortuna ameaça a potência militar do mundo. Os misteriosos bastidores sobre a História da relação entre EUA e países e grupos árabes é uma caixa-preta impenetrável. E só ela, talvez, contenha verdades que nem imaginamos. O anúncio da morte de Bin Laden, por exemplo, poderia ser um acerto entre grupos islâmicos e os EUA, com vantagens para ambos os lados. Obama garante sua eleição, Osama pode viver sem medo, muito dinheiro poderia circular pelos países envolvidos e cujos regimes estão a perigo. Só o tempo poderá dar a resposta certeira para a questão. Mas a ideia de uma morte repentina do líder que se encontrava em uma região militarizada do Paquistão, aliado dos EUA, e não no Afeganistão, destino dado sempre como o provável refúgio, contém interrogações poderosas. Para a História, no momento, permanece o simbolismo da morte do terrorista que ameaçou a potência. Isso é inegável. Além das consequências relatadas, o desaparecimento de Osama pode ser a justificativa honrosa para a saída norte-americana do atoleiro em que se encontra no Afeganistão. Poucas vezes um fato histórico foi tão conveniente quanto este.

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Kassab e Delúbio: a falência do sistema partidário brasileiro

A criação do PSD, liderada pelo Prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, um partido que entra para o anedotário nacional por não ser nem de esquerda, nem de direita, nem de centro, mas neutro, eufemismo utilizado com o objetivo de abrigar oposicionistas de hoje e que amanhã acordarão apoiando o governo, e a refiliação de Delúbio Soares, artífice do Mensalão, ao PT, em clara compensação pelo silêncio que manteve nos últimos 6 anos, são demonstrações evidentes de que o sistema partidário brasileiro está falido. Indícios são conhecidos há tempos. Esses dois fatos, porém, mostram que não há saída. A reforma do sistema partidário é essencial para qualificar a democracia brasileira. Nossa democracia é eficiente ao garantir liberdade, ao cultivar a tolerância e, nos últimos 20 anos, permitiu estabilidade econômica e a ascensão social de milhões de pessoas. Pela fragilidade dos partidos políticos, porém, o recrutamento de lideranças que constituem a elite política é precário e transmite a sensação de que somos governados e representados por qualquer um. Como consequência, emerge o desencanto e o desinteresse com o mundo público, que movimenta bilhões que deveriam ser utilizados para melhorar a vida de todos. Enquanto isso, espertalhões de todo o tipo e grupos organizados tomam conta do Estado brasileiro e fazem da política instrumento para o advento de interesses privados e pessoais. O Estado, por isso, assume posição de descrédito. Nosso sistema partidário deveria ser reduzido a cinco partidos políticos, os atuais mais votados, com a agregação de tendências ideológicas internas, financiamento público de campanhas, a restrição a quantidade de mandatos e reeleição, o fim do voto obrigatório e a gradativa redução do número de cargos à disposição dos partidos que assumem o poder. Qualquer reforma que não mexer nessas questões manterá tudo como está.

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Culpa e hedonismo em Oscar Wilde



O romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, é grande ao retratar um mundo no qual o hedonismo se transforma no valor absoluto. Esbarra, no entanto, no imenso sentimento de culpa que permeia cada linha, cada palavra, todas as situações. Wilde não conseguiu desvincular-se desse sentimento que é a tormenta permanente a questionar a ação. Talvez quisesse isso mesmo. Ao retratar a entrega à beleza, à vaidade e à juventude, o escritor irlandês construiu, ainda nos anos 1890, uma obra que ilumina o mundo contemporâneo. Em qual tempo, afinal, a beleza e a juventude foram saudadas com tanta ênfase e exclusividade como no nosso? No mundo de Wilde, porém, o império do hedonismo resulta em um turbilhão destrutivo e amaldiçoado, seguindo as melhores crenças cristãs. O prazer, momentâneo e etéreo, termina no limite da culpa, da podridão, da miséria de espírito que retira a capacidade de permanecer na vida. É ele, o prazer, uma espécie de pai dos males mundanos. Por ele, qualquer transgressão é justificada. E sucessivamente, cada vez mais, de maneira a derrotar o ser entregue a seus pendores. Há algo mais cristão? Pois bem, os cinemas apresentam agora a versão 2011 de O Retrato de Dorian Gray, filme de Oliver Parker fiel ao espírito de Wilde, mesmo que possa ser contestado em alguns pontos. A sensualidade transparente na obra literária é substituída pela orgia, a insinuação é leve, muitas vezes não convence, mas o essencial está lá: Dorian Gray, belo jovem, em um pacto consigo mesmo, abandona a altivez de espírito para degustar os prazeres da carne, do presente, da beleza e da devassidão. Representando uma consciência moral, que é social também, todas as misérias concentram-se no quadro que retrata sua imagem sedutora e jovial. A culpa, aqui, aparece de forma intensa e poderosa. E ela estará sempre presente. Em cada ação, Dorian esfola-se no lamaçal dos valores perdidos. Nunca desiste de seu pendor presenteísta. Suplanta convenções sociais, transgride o padrão sexual aceito, ultrapassa uma ordem comunitária – torna-se o ser que existe para satisfazer a si mesmo. Perde-se na própria imagem - reflexo de um instante cristalizado. E caminha para a tragédia. Goste-se ou não, nosso tempo registrou a vitória da estética e do hedonismo, a suplantação da forma em relação ao conteúdo. E assim é, por mais que muitos esperneiem. Oscar Wilde foi primoroso ao antecipar esse mundo. E falhou na tentativa de compreender as suas consequências.

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domingo, 17 de abril de 2011

McEwan e a fé da modernidade

A modernidade é construída sob a égide de que a razão é capaz de suplantar e tornar irrelevante qualquer uma das misérias humanas que ao longo do tempo marcam a nossa História. Crença forte, ela mantém-se firme, visto o valor que se dá à ciência como verdade da vida. Óbvio: por meio do conhecimento científico conquistaram-se inúmeros benefícios, lista longa e inegável. A questão é o valor absoluto transmitido ao conhecimento científico, especialmente retirando-lhe a influência subjetiva das mentes que o produzem. Nos últimos 20 anos, principalmente, a ciência é o veículo de verdades aterradoras a respeito do futuro do planeta, condenado pelas ações destruidoras dos seus habitantes humanos. Conhecimento, discurso, ideologia e fé produziram-se a partir de constatações lastreadas pelo vigor do método científico. Como sempre, algumas alternativas interessantes vicejaram, como a produção alternativa de energia. Por trás desses discusos e ações, porém, estão homens e mulheres com todas as suas sutilezas, suas misérias privadas, as histórias que carregam, sejam elas psicológicas ou sociais, os valores que representam. No romance Solar Ian McEwan liga as duas pontas, construindo uma história interessante para se pensar a respeito dos conhecimentos que cultuamos. A sensação após a leitura é de que não é possível, inevitavelmente, fugir do homem e das suas circunstâncias. Qualquer saber, por mais que tente o contrário, à mente humana está condenado.

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Jornalismo e ética pública

O jornal Zero Hora publicou no dia 28 de março reportagem assinada pela jornalista Adriana Irion tornando pública investigação a respeito de gastos e contas custeadas pela Associação de Amigos do Memorial do Rio Grande do Sul e realizadas pelo então diretor, o historiador Voltaire Schilling. Os valores envolvidos, a princípio, não parecem vultosos. A questão principal é de ordem moral. O diretor alega que é vítima de perseguição realizada por aliados da ex-secretária Estadual da Cultura, a inesquecível Mônica Leal. A partir do fato, intelectuais, entre eles Kathrin Rosenfield, Marcelo Carneiro da Cunha e Gunter Axt, saíram em defesa do professor. Há nessas opiniões evidente corporativismo e algumas relativizações com as quais não se pode concordar. Uma delas dá conta que os gastos foram realizados no afã do envolvimento com eventos culturais, momento em que a razão contábil acabou suplantada. Infelizmente, é o mesmo argumento utilizado, em outra dimensão, por José Dirceu para justificar o Mensalão: no afã dos jogos políticos, a razão ética perde espaço. Afora algumas correções, no entanto, a defesa do professor tem sentido. A reportagem de ZH só tem fundamento justificada por uma sanha moralista. Um caso como o dele é para ser resolvido na esfera administrativa: investiga-se o ocorrido, solicita-se a devolução dos valores, aplica-se multas, havendo comprovação da acusação. Os resultados devem ser tornados públicos pelos órgãos fiscalizadores. Erros administrativos ocorrem por desconhecimento, por arrogância de chefetes de plantão, ou por outros motivos inerentes à natureza humana. Não nos enganemos, a falta de controle leva a vida civilizada à guerra de todos contra todos. A bondade é uma ilusão rousseauniana. E a punição deve ocorrer, proporcional ao erro, e com correções de rumo que evitem sua repetição. O caso gaúcho é uma boa oportunidade para se pensar além. A política brasileira administra o Estado, que é ineficaz e ineficiente. Por isso, qualquer denúncia repercute e escandaliza. E quanto mais repercussão e escândalo, mais denúncias aparecem. Vejamos o Escândalo dos Pardais, no Rio Grande do Sul. Esses equipamentos existem e garantem alto faturamento porque os cidadãos – todos homens de bem, registre-se – descumprem as leis de trânsito. Se todos cumprissem as regras, os pardais seriam o pior negócio do mundo. Pois bem, além disso, o funcionário público acusado de liderar o processo é caracterizado por colegas como um obcecado pelo tema, profundo conhecedor do sistema e, inclusive, autor intelectual de diversas soluções para o produto. Um exemplo de gestor, enfim. Exemplo, excluído o fato de que faturava ‘por fora’ e supostamente cobrava propina das empresas que participavam das licitações. Não duvidem: em uma empresa privada, um funcionário com essas características seria alçado a funções de comando e liderança e receberia, periodicamente, prêmios polpudos pelo seu resultado, pouco caso se fazendo aos interesses dos clientes. Muitos dos que o denunciam defendem a aplicação de métodos dos negócios privados na arena pública. Sutis contradições. Não se faz aqui, evidentemente, a defesa da propina. No setor privado ela é chamada de taxa de sucesso, participação em resultado, coisas do tipo. O mundo público, no entanto, precisa de regramentos próprios, inerentes à sua natureza, e a principal saída é a profissionalização, como bem defendeu o jornalista David Coimbra em crônica no jornal Zero Hora desta sexta-feira. A política, que administra o Estado, é regrada no Brasil pela ‘ética do emprego’. O debate sobre isso é o mais fundamental. E não significa dizer que todos são incompetentes, mas sim que é necessário discutir a forma como a política administra o Estado. Essa profissionalização não acabará com a corrupção, mas é instrumento poderoso pra tornar o serviço público eficiente e eficaz, reduzindo o espaço de manobra dos malversadores. O grande problema de pequenos escândalos da administração pública veiculados pela imprensa é que eles não são resultado de argúcia jornalística, mas sim de interesses em jogo. O malversador preterido denuncia o que está se beneficiando, querendo derrubá-lo, ou então outro que está pretendendo aquela posição repassa as informações. Quando o atingido cair, ele toma conta da situação. A roda segue e o jornalismo – e os jornalistas – são utilizados para que o jogo não pare.

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sobre o direito de se transformar

lixo

Depois de ser anunciado como um dos indicados ao Oscar de Melhor Documentário em 2011, o filme Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, chamou a atenção do Brasil. Em 2010, a obra recebeu destaque no Festival de Sundance. Mesmo com atraso, é parada obrigatória para todos que desejam conhecer um pouco mais do Brasil e as generosas qualidades de sua gente. Filmado entre agosto de 2007 e maio de 2009 no Aterro Sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, conta a história da produção de obras do artista plástico Vik Muniz neste que é considerado um dos maiores depósitos de detritos do mundo. Esqueça Vik, porém, ao assistir o filme. A riqueza maior está em revelar pessoas que garantem a sobrevida chafurdando em fétidas montanhas de lixo, no limite entre a dignidade e o abjeção. Aquelas personagens, veremos ao longo do documentário, não merecem compaixão, mas sim oportunidades para alçar um voo rumo a sonhos que muitos sequer imaginam possuir. O mérito de Vik é o de acreditar que cada um pode realizar uma produção a partir de sua realidade sem precisar de uma louvação exagerada à condição social. A mistura de arte e lixo é instigante, ambas produções humanas com sentidos, destinos e objetivos contrários. Enquanto a arte busca superar as limitações humanas, atingindo uma dimensão para além da simples materialidade, o lixo expressa todo apego ao consumo, ao material, e a fugacidade dessa paixão, que acaba em montanhas mal cheirosas e repletas de aves de rapina. No aterro do Gramacho, é o lixo que garante a dignidade de brasileiros que não têm alternativas, cujos sonhos são impossíveis e para quem a vida é a mera sucessão dos dias. A intervenção de Vik mostra como a arte inserida naquele ambiente pode transformar a auto-imagem dos catadores selecionados para trabalhar no projeto. É uma transformação simbólica gigante que terá impactos aparentemente pequenos nas vidas de Tião, Suelen, Irmã, mas que, ao fim, pode-se dizer,  é uma verdadeira revolução. Note-se a alegria e a efusividade dos catadores mesmo em meio ao lixo fétido. Lixo Extraordinário é um filme para ser visto e  constatar como a arte pode ser um elemento de transformação – e nesse caso, ela é um exemplo de como oportunidades podem levar as pessoas a expandir seus horizontes e perspectivas – e como o Brasil tem a inevitável missão de garantir padrões de dignidade a um povo que consegue expressar alegria, entrega, generosidade  e tem a capacidade de se transformar diante da oportunidade que abre a vida e a mente para o sonho, para a sensibilidade e para a crença em si próprio.

A Era Sarney

Impressiona o Brasil o sacrifício do senador José Sarney, 80, em permanecer por mais dois anos na presidência do Senado da República. Como agradecer-lhe? Reconhecendo, definitivamente, o papel desempenhado pelo seu governo para construir o Brasil contemporâneo. Valendo-se da ironia ante o cansaço e a inutilidade da crítica racional, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo acabou por definir a  dimensão real do legado de Sarney para o país em que vivemos. “Na academia, nos jornais e alhures, discute-se se estaríamos vivendo ainda uma era FHC, graças ao rescaldo de suas reformas, ou uma era Lula. Nada disso. O país vive, há mais de meio século, a era Sarney”, escreveu com exatidão na revista Veja. Vivemos sim, a Era Sarney. Vejamos. FHC é comemorado pelo Plano Real e todos os  benefícios resultantes da estabilização da economia nacional. O Plano Real foi apenas a síntese dos acertos alcançados pelos planos anteriores, iniciador por Sarney com o Plano Cruzado. Três dos principais formuladores do Real, Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha, foram também, adivinhem, os idealizadores do Plano Cruzado, no governo de Sarney. O Cruzado deu errado porque o governo não teve a determinação necessária para impor uma política fiscal austera, coisa que ocorreu com força nos anos 90. Lula, por sua vez, é abençoado pelos resultados sociais de seu governo. Gaba-se, em discursos internacionais, de ter governado para eliminar a fome e garantir que cada cidadão possa realizar três refeições ao dia. Essa lógica, de uma ação efetiva do Estado no combate às mazelas sociais teve início no governo de Sarney, cujo lema era ‘tudo pelo social’. Um dos principais programas da época, o Programa Nacional do Leite, chegou a ser reconhecido internacionalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Nos anos 80, as ações sociais eram mais assistencialistas, o que mudou passados 25 anos. Mas o gérmen remonta aos tempos sarneysistas. Por isso, saiam às ruas e bradem, petistas e peessedebistas, reacionários e progressistas, um retumbante ‘Viva a Era Sarney!’.

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A ditadura do grupo

inverno

Concorrente ao Oscar de Melhor Filme neste 2011, Inverno da Alma, dirigido por Debra Granik, é anunciado como um retrato do interior profundo dos EUA, lugares nos quais o império dos direitos individuais e das liberdades não chegou e em que as regras são ditadas pelos códigos do grupo. Cumpre parcialmente a promessa. Mas permite que se conheça o funcionamento de um grupo social tradicional mesmo em uma sociedade que transita entre a liberalidade e o conservadorismo. No Brasil, conhecemos muito bem essa característica, e por isso o impacto do filme não é contundente. As favelas nacionais, bem como as localidades interioranas, são, sobretudo, sociedades orgânicas, no sentido definido por Durkheim – tradicionais, portanto. É fundamental registrar que uma sociedade tradicional difere de uma sociedade conservadora em sutis pontos. O principal deles é que o conservadorismo admite e convive com a transgressão. Já o ‘tradicionalismo’ lida com dureza em relação aos indivíduos que a ele afrontam. Ree Dolly, 17 anos, precisa encontrar o pai para não perder a casa em que vive com a mãe doente mental e os dois irmãos menores. Na empreitada, expõe a vida dura, pobre e movida com o consumo e a produção de drogas desse interior norte-americano. Seu maior obstáculo, no entanto, é o fato de que o caminho em busca do pai significa, para o grupo, o rompimento com as regras tácitas de seu funcionamento. Naquela sociedade, Dolly enfrenta o grupo e vislumbra o perigo e a punição. Consegue fazer com que as peças se movam, porém, a partir da insistência e de apoios esporádicos. Ela tem diante de si o dilema que contrapõe a necessidade de sobrevivência e o enfrentamento dos códigos e valores do grupo. Há um certo consenso sociológico de que a força do grupo é sempre draconiana sobre os indivíduos. As mudanças, porém, só ocorrem quando indivíduos se dispõem, a partir de condições sociais dadas (para Durkheim, a divisão social do trabalho), a transformar as realidades, seja por ideologia, necessidade, paixão, ou outro combustível do tipo. Inverno da Alma é um bom mosaico de como os grupos tradicionais permanecem mesmo em sociedades que avançaram e constituiram-se pelo respeito às liberdades e à autonomia do indivíduo. A pobreza quase sempre vem acompanhada pela ditadura dos grupos, que cerceiam os caminhos dos indivíduos. Além disso, Inverno é dilacerante ao confrontar-nos com as exigências emocionais que se impõem a Dolly. São experiências que poderiam endurecer eternamente qualquer um, mas a menina sai delas com serenidade comovente. Com uma pulsão de vida que compensa toda a dor.

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Relações ordinárias e sentimentos pulsantes

matei

Há filmes que se deve ver simplesmente para incendiar a reflexão interior. Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan, é um deles. Apesar de permitir uma extensa análise psicanalítica, os depoimentos de Hubert, um adolescente homossexual de 16 anos, e seus conflitos com a mãe, afloram a brutalidade que envolve as relações afetivas com aquelas pessoas que adornam nosso cotidiano ou estão em nossas vidas pela decisão suprema do destino. Esses encontros estão dilacerados pelos limites entre amor e ódio, pela ligação visceral e pela necessidade de afastamento, pelo apego e pelo desapego. O filme mostra com maestria como relações assim, ordinárias, despertam um vulcão de sensações diante de detalhes compartilhados em um singelo café da manhã – uma manteiga no canto da boca, por exemplo. Eu Matei..., por isso, transcende todas as possibilidades de se pensar sobre ele, e nos leva a um mergulho pessoal. Mesmo que a realidade nossa seja diferente da dos personagens, é impossível não embrenhar-se no mundo dos sentimentos e das sensações provocados por todas aquelas pessoas que constituem nossos cotidianos e pensar em como ultrapassamos limites sem ter razões refletidas para isso. A relação de Hubert com a mãe transita no limite do amor e do ódio, da paixão e da raiva, e para esse conflito existiriam inúmeras explicações. Mas o filme tem o grande mérito de despertar os sentimentos de quem o vê. Para quem, evidentemente, se dispor a isso, sem fugir por atalhos que impedem o sempre lúcido olhar interior.

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os índices de desemprego que explicam a democracia brasileira de 2010

Há os que têm séria dificuldade em compreender o fenômeno Lula. Há os que exageram na louvação de sua dimensão histórica e, por fim, os que tentam apequená-lo. Sobre isso, escreveu Eliane Brum brilhante artigo no site da revista Época. Mas a dimensão histórica do ex-presidente somente o tempo poderá demarcá-la. Por ora, alguns dados ajudam a entender a altíssima popularidade de seu governo e a estrondosa vitória de Dilma Rousseff (sim, imaginem em que hipótese Dilma se tornaria Presidente da República não fosse no embalo de um governo vitorioso ao olho popular). Pois bem, o IBGE acaba de informar que o índice de desemprego em dezembro de 2010 foi de 5,3% e a média do ano ficou em 6,7%. São os menores valores desde que a pesquisa é realizada, em 2002. Senso comum, pode-se dizer que é o menor índice dos últimos 25 anos, no mínimo. Há 12, 13 anos, invejavámos os indicadores norte-americanos, também em torno de 5% (considerado tecnicamente como índice de reposição). A saudação aos indicadores, ressalte-se,  não significa esquecer os salários aviltantes, as condições de trabalho nem as deficiências do regime trabalhista brasileiro. Na campanha eleitoral de 2002, é importante lembrar, o candidato governista José Serra disse tacitamente que, seu governo seria radicalmente diferente do de FHC no combate ao desemprego e à violência. Dedução óbvia: se o candidato do governo diz, é porque algo de grave e errado havia. Notem, não é o aperfeiçoamento nem o avanço, mas a transformação, uma forma sutil de negar o que estava sendo realizado. A preocupação com o emprego, nessa época, liderava todas as pesquisas sobre as inquietações da população. As boas ações do governo de FHC eram encobertas pela chaga social que destroça lares, impede sonhos, reduz o indivíduo e desanima sociedades. Na vida social, nada é mais nefasto que o desemprego. Sob o governo de Lula, foram criados 15 milhões de empregos, no governo de FHC o número não chegou a 1 milhão (considerando-se que em muitos anos houve o fechamento de vagas). Esses indicadores explicam o gigantismo da popularidade de Lula, para além das análises simplórias dos comentaristas tutelados pela revista Veja, segundo os quais as decisões dos eleitores remontam à critérios dos anos 20 e eles – comentaristas -  é que possuem o caminho do Sol. O mundo e o Brasil mudaram. Não serão reeleitos governos que não atenderem as demandas populares. E cada vez mais elas se tornarão sofisticadas. Dilma, com certeza, para obter sucesso em 2014, precisará avançar no combate à insegurança e em áreas como habitação, educação e saúde. Assim como o governante de 2020 terá metas mais aperfeiçoadas a cumprir. Bem como FHC foi premiado e o PT punido em razão do Plano Real, que combateu o mal da época, a inflação. Uma democracia, queiram ou não, funciona assim: com demandas e as suas respostas. Aos que resistem ao evidente, sugere-se um mergulho em Norberto Bobbio, o grande teórico das democracias contemporâneas. O sucesso do governo de Lula no combate ao desemprego não o redime de todos os erros cometidos e nem anula as inúmeras deficiências apresentadas. Seus opositores dizem que os bons números devem-se às ações de FHC. O engraçado é tentar entender por que José Serra dizia, em 2002, que seu governo seria radicalmente diferente do de Fernando Henrique Cardoso exatamente quanto ao combate ao desemprego. Bem ou mal, os benefícios e os malefícios enfrentados por uma nação durante um governo a este são creditados, até porque não existe economia que funcione em piloto automático e governar é decidir, seja para continuar ou para transformar.

 

O didático vídeo de Serra, em 2002, dizendo no que um governo deveria ser diferente do de FHC

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